BRASIL ACIMA DE TUDO OU AMÉRICA PRIMEIRO ?

 “Dada a relevância do assunto, estamos publicando neste espaço o  artigo  intitulado  BRASIL ACIMA DE TUDO OU AMÉRICA PRIMEIRO ? de autoria do economista José Menezes Gomes, ex.aluno do Curso de Economia  da UFMT, hoje Professor Pós-Doutor na Universidade Federal de Alagoas , Diretor técnico do DIEESE e professor do curso de economia e do Mestrado em Serviço Social da UFAL.  

Durante o processo eleitoral tivemos um slogan sendo repetido por muitos sem que se soubesse efetivamente do que se tratava: Brasil acima de tudo. Em primeiro lugar se tratava da tradução para o Português do slogan usado por Hitler: Alemanha acima de tudo ou Deutschland über alles1Esta consigna acabou levando ao inicio da Segunda Guerra mundial onde 40 milhões de pessoas morreram, onde seis milhões de judeus foram eliminados em campos de concentração. Em segunda lugar, tínhamos o Deus acima de tudo(também inspirado no mesmo movimento).

Passado a eleição e inicio da montagem do futuro governo várias declarações vão revelando o caráter deste governo. A primeira declaração foi de que o brasil não iria priorizar o Mercosul. A segunda, é que a China deveria ser questionada nos princípios defendidos por Trump. A terceira é que Brasil deveria ter embaixada em Jerusalém. A quarta é que brasil deveria romper relações com Cuba.

Se aplicado todas estas propostas teríamos o fim do Mercosul e a perda da exportações para a Argentina, que agravaria ainda mais o quadro econômico daquele pais mas com séria repercussão sobre os exportadores brasileiros. Se manifestar a saída dos BRICs e tensionar com a China perderíamos o maior mercado para as exportações brasileiras com grave consequência para o agronegócio do brasil (a principal base de apoio deste futuro governo). Por outro lado, a mudança para da embaixada para Jerusalém terá como consequência retaliação dos países árabes de boicote a produtos brasileiros (novamente o agronegócio fica na berlinda).2

O futuro presidente incorpora o personagem Trump e tenta ser o seu ventrículo no cenário internacional colocando em risco até mesmo a forma de inserção internacional do brasil, baseada na reprimarização, sem que esteja apontado qualquer politica industrial alternativa. Ao contrário o que está posto pelo seu futuro ministro da fazenda é o aprofundamento da abertura comercial que poderá ampliar a falência de grande parte das industrias brasileiras, repetindo o ocorrido no primeiro governo de FHC.

Não satisfeito com isso temos em andamento o processo de privatização das estatais brasileiras como a Petrobras, Banco do brasil, Caixa Econômica, etc. Tal fato se concretizado poderá aprofundar ainda mais o processo de desnacionalização da economia brasileira com serias consequências sobre o Balanço de pagamento, no seu histórico deficit da conta Serviços.

Enquanto, o setor produtivo vai sendo ameaçado pela crise já existente e pelas ações futuras que irá aprofundá-la, o setor financeiro se preparar para ganhar mais dinheiro caso seja aprovado a reforma da Previdência, ainda mais severa que a proposta do Temer. Em linhas gerais, estas declarações seguem o principio já antes defendido pelo Vice, de que o Brasil deveria reorientar sua pauta de exportação saindo dos mulambentos da Africa e da América do Sul, buscando mercados mais consistentes. Todavia, o que temos aqui é um somatório de fundamentalismo religioso e um fundamentalismo ultraliberal enquanto os direitos fundamentais são atacadas juntamente com as liberdades democráticas.

Em resumo, pelas proposições iniciais o que temos é o slogan brasil acima de tudo transformado em América primeiro (slogan de Trump que tem aprofundado uma Guerra comercial com vários países). Ou seja, o brasil propõe a abertura comercial enquanto Trump amplia o protecionismo para as empresas americanas que perderam competitividade para as industrias chinesas. Em outras palavras, o brasil acima de tudo funciona como o América primeiro, de Trump. O que sobra para o brasil e o slogan: banqueiros acima de tudo.

José Menezes Gomes – Doutor pela USP e pós doutor pela UFPE e coordenador do Núcleo Alagoano pela Auditoria cidadã

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