Conselho de Especialista: ‘Se a sua viagem não for essencial, adie’, aconselha médica infectologista

Tânia Chaves, pesquisadora do Ministério da Saúde, foi a entrevistada desta sexta-feira na Live do Tempo e disse que, se for necessário viajar, que a pessoa vá de carro

 Radicada no Pará, onde o total de casos de Covid-19 tem recuado, Tânia Chaves diz que caso a pessoa precise se deslocar no momento, que ela faça isso de preferência de carro, com o objetivo de reduzir os riscos de transmissão da doença. Em entrevista nesta sexta-feira (10) à live do Tempo, a pesquisadora do Ministério da Saúde afirmou que o brasileiro deve adotar a disciplina, como fazem os povos orientais, e ter como hábito de agora em diante o uso regular da máscara, a lavagem das mãos de forma regular com água e sabão e o uso de álcool em gel. Tânia Chaves também é membro e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) e da Sociedad Latinoamericana de Medicina del Viajero. Confira a entrevista.

Quando é que a gente vai poder voltar a viajar? O ideal seria que já tívessemos a vacina, mas ela vai demorar, até o ano que vem, provavelmente. A recomedação é que as viagens domésticas sejam as primeiras a serem realizadas. Se a viagem não é essencial, adie, até porque nós sabemos que temos momentos distintos da pandemia. Se não for essencial, deve ser postergada, pelos aspectos envolvidos na transmissão do vírus e ratificado pela OMS de que a transmissão pelo ar pode ocorrer, após pedido de pesquisadores para revisão das formas de transmissão, incluindo os aerossóis, o que nos torna ainda mais vulneráveis. Nesse momento, que as viagens sejam realizadas de preferência de carro, com o objetivo de reduzir os riscos de transmissão da doença. Essas condições devem ser adotadas junto com protocolos nos hotéis para a segurança, junto ao uso de máscaras, limpeza regular das mãos, e manter o distanciamento social, principalmente porque em algumas capitais e cidades estão abrindo seus serviços para voltarem à sua rotina.

Os protocolos para segurança do viajante funcionam? Antes de falar dos protocolos, a gente tem que deixar claro a importância da conscientização, do conhecimento, a partir de uma informação clara e objetiva. A comunicação é fundamental. Hoje, um protocolo precípuo é o uso de máscaras, que deve ser incorporado nas nossas rotinas. Em alguns países asiáticos, a prática de uso de máscara de longa data por causa da poluição, resfriado, gripe, tem que ser incorporado. A gente já vê nas cidades, ainda não de forma ampliada, é o uso inadequado ou o não uso da máscara. Outro protocolo que a gente tem que seguir é a higienização das mãos. Existem campanhas internacionais de higienização, como o dia internacional da higienização das mãos, divulgadas pela OMS e pelo CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA) . Esse protocolo exige uma discipla e um conhecimento do viajante para ele tenha uma mudança de atitude e passe  a adotar essa nova prática. Sobre os protocolos que são recomendados pelas companhias aéreas, balizados pela Anvisa, têm que ser seguidos.

É seguro entrar em um avião hoje? A última viagem que eu fiz foi em março , tenho me preocupado com essa segurança. Por outro lado, nós sabemos que as aeronaves disponibilizam filtros de alta capacidade para filtrar micropartículas, e existe uma higienização mesmo antes do coronavírus e que isso está sendo praticado. Outro protocolo que se tem discutido é a necessidade que as companhias terão que alocar esses viajantes de forma mais distante. Por outro lado, isso pode implicar em consequências econômicas. Isso pode gerar aumento das tarifas. Existe uma discussão da inversão do acento do meio, inclusive com a utilização de uma cabine protetora para evitar o contato, mas isso ainda são situações que as companhias se adaptarão. Não vi nenhuma mudança de fato nesse aspecto ainda. Se a viagem não é essencial, o melhor é não viajar. O equipamentos são de alta filtração e que são capazes  de manter a segurança. Há estudo sobre transmissão de doenças por via aérea nas aeronaves, por exemplo, sarampo e influenza. Sarampo é, dos vírus respiratórios, o que tem a maior capacidade de alcance na transmissão em poucas horas, principalmente nos indivíduos que nunca tiveram a doença e, portanto, não são vacinados.

Qual a segurança que deve ser oferecida para quem for a uma pousada?Nos cruzeiros agora é preciso ter turnos e limitação de pessoas. Existe a recomendação sobre a chegada dos viajantes nos aeroportos, para que haja um distanciamento na hora do check-in de 2 metros entre um viajante e o outro. Nas pousadas,  quando a gente chega na entrada e já tem um álcool em gel para a higienização das mãos, entra no protocolo. Assim como a frequência da limpeza das superfícies sólidas com os saneantes adequados. A gente não pode usar produto químico que não seja adequado para limpeza das maçanetas, portas, bancadas, sofás.

Como o viajante vai confiar se não há fiscalização? Se eu quero abrir um bar, a vigilância sanitária vai avaliar as minhas condições de higiene. Agora é o momento de nós nos prepararmos para fazer essa vigilância. Coreia do Sul e Singapura avançaram muito na redução do número de casos porque houve uma preparação ao longo de 20 anos. Temos que estar preparados, os setores de saúde. Os trabalhadores envolvidos no turismo precisam ser treinados sobre como se portar, higienizar, como receber. A vigilância tem que ser de todos nós. Não existem vacinas 100% eficazes, mas 98%, 99%. Segurança e confiança têm que partir do estabelecimento para ele mostrar ao viajante.

Qual o nível de segurança para uma família que quer alugar uma casa numa praia mais afastada, numa serra, zona de natureza, numa cidade menor? Numa situação como essa , em que todos querem viajar, a gente tem que fazer a nossa conscientização. Quer sair, levar as crianças, evite os horários de pico, refeições devem ser feitas em espaços abertos. Tem que partir dessa pemissa, evitar aglomerações. Essa curva do número de casos ter se reduzido em algumas regiões não nos dá nenhuma segurança para fazermos o que fazíamos antes. É preciso rever procedimentos e evitar se expor.

Por que o Pará está com curva controlada já é motivo para relaxar, viajar? O período de maior circulação dos vírus respiratórios aqui na região Amazônica é  dezembro, abril, maio. Estamos agora com baixa sazonalidade dos vírus. Essa característica naturalmente tem nos favorecido. Outras medidas têm sido praticadas. Ampliação da sua rede de assistência, ratificar o isolamento social, fizemos o lockdown, que chamamos de tranca a rua. Essa baixa, além dessas medidas, não há nada miraculoso. Com certeza, essa circulação e a sazonalidade viral que vivemos naturalmente têm contribuído para a redução do número de casos. Na região Sul e no Sudeste está acontecendo exatamente o contrário. Tem esse cenário epidemiológico, da redução de sazonalidade dos vírus respiratórios que vivemos. Não significa que as infecções respiratórias não sustentem sua transmissão nos trópicos.

 Qual a sua opinião sobre a profilaxia com invermetina? Não há nenhuma evidência científica sobre o uso dos medicamentos profiláticos para as doenças virais, respiratórias e especialmente para a Covid-19. Tenho experiência com a profilaxia da malária, para aqueles viajantes que se destinam às áreas de risco, como a África. Para esses, sim, existem estudos muito bem conduzidos sobre a eficácia da profilaxia para essa doença. É muito importante deixar claro que a eficácia observada de uma droga, um fármaco in vitro para um determinado patógeno é totalmente diferente da dose quando você faz in vivo.  Não há embasamento científico para o uso na Covid-19

Quando for aumentar essa demanda de turismo, de laser ou de negócio, quais serão as medidas para o transporte rodoviário? O ônibus é mais seguro do que o avião? Existem vários estudos que mostram a transmissão de doenças respiratórias também em transportes coletivos, como ônibus. Existem empresas dedicadas à construção desses veículos apostando no espaçamento das poltronas. Os protocolos também devem ser seguidos. Limpeza do piso, das paredes, utilizar mais as janelas, não ter mais aquele desenho lado a lado, são estudos que estão sendo feitos. Usar os saneantes químicos adequados. Existe orientação para as companhias aéreas que se tiver um passageiro com alguma doença que não seja o Covid, que se utilize mantas ou travesseiros que sejam da companhia e que sejam imediatamente higienizados, assim que forem disponibilizados. Tem toda uma lista da Anvisa de saneantes.

Se a pessoaa for para um hotel é melhor levar a sua própria roupa da cama, toalhas? Acho que não seria tanto. Gostaria de ter a confiança 100% de que essa pousada, esse hotel está cumprindo com lavagem adequada da roupa de cama e tudo o mais. Quero acreditar que estamos pensando na coletividade. Os setores devem pensar em atender da melhor forma possível o seu cliente. Ofertar essa segurança desde a entrada.

Quanto tempo o vírus sobrevive num travesseiro, por exemplo? Logo no começo da pandemia, teve inúmeros trabalhos sobre a persistência do vírus na superfície. Na maçaneta, ele persiste por aproximadamente oito horas, no ar, por três horas e num período  que ele possa ser viável. Por exemplo, no teclado do computador ele já foi encontrado no período da Sars, que é da mesma família, por até cinco dias. Não significa dizer que ele vai ser infectante por esse tempo. Ele perde a robustez em atacar o nosso organismo. Nas roupas, nos sacos plásticos, no papel ele persiste, mas tem um tempo de viabilidade. Ele não tolera álcool em gel e água e sabão. O vírus gosta mesmo é da mucosa, desse ambiente quando ele entra no organismo. A lavagem com água e sabão da mão e do tecido elimina o vírus.

Bagagens em contato com outra podem transmitir a doença? É possível, por isso vamos praticar os protocolos da higienização das malas. Estudos científicos não mostram uma comprovação que raios ultravioletas funcionem, por exemplo. Tem os saneantes ideais para se evitar o contágio a partir dessa cobertura.

Uma pesquisa indica que os locais mais perigosos para se contrair o vírus são bar, culto, show de música, concerto, cinema, parque de diversões, academia, bufê a quilo. Os menos perigosos são receber uma carta pelo correio, pedir comida em restaurante, abastecer carro no posto, jogar tênis e acampar. Existe realmente um grau de exposição que é mais perigoso do que outro? Tem sim. Com certeza. Num bar, quantas vezes a gente sai beijando os amigos sem proteção. Shows e concertos de música vão demorar, assim comno em todos os ambientes que geram aglomeração. Eu tenho utilizado as máscaras de tecido para sair para a instituição onde faço pesquisa. Com uma hora e meia ela está úmida. A máscara serve de barreira. para um indivíduo pré-sintomático. Diferente das usadas nas unidades de saúde. Todos esses ambientes citados são condições viáveis para transmissão. Não podemos garantir que porque o número de casos aqui no Pará caiu que deve liberar tudo. Temos agora de praticar o que aprendemos, incorporar esse novo normal. Em vez de usar anel, pulseira, relógio, usar a máscara e reutilizar adequadamente, lavar com água e sabão, passar o ferro, ter no mínimo quatro. Aqui tem agendamentos de pessoas, tudo mundo tem que se readaptar e ter uma coisa que para nós ocidentais é difícil, que é a disciplina. Esse vítus veio para ficar, não é uma fala ameaçadora, é uma informação clara. Ele não vai desaparecer, precisamos ter vacinas diferentes que sejam eficazes e possam levar a saúde para as pessoas.

Fonte:   otempo.com

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