Sou muçulmana e mãe. Eis o que é explicar o 11 de setembro de 18 anos atrás para meu filho

 

*Huda Saad Jawad é uma dentista iraquiano-britânica que mora em Londres com o marido e os dois filhos.

Inocência é um traço que define a infância. É o que permite que as crianças sejam abertas, criativas, otimistas e lindamente inocentes.

Meu filho não é exceção. Sua curiosidade, combinada com sua falta de filtros, causou vários momentos divertidos – e outros tantos constrangedores. Uma situação em particular me deixou angustiada e às lágrimas… Foi por conta de um desenho que ele fez.

Era uma manhã como todas as outras, arrumando as crianças para ir para a escola. Na verdade, era um pouco atípica, porque estávamos prontos antes da hora, sem a correria de sempre. O dia prometia. Sugeri ao meu filho: “Por que você não fica desenhando até a hora de sair?”.

Ele não é o melhor dos artistas, mas gosta de desenhar certas coisas. Seu repertório se resume a carros, casas e aviões. Ele decidiu desenhar o Burj Khalifa, prédio mais alto do mundo e um interesse particular dele, pois tínhamos ido a Dubai.

Elogiei o desenho com a empolgação tradicional das mães, enquanto ao mesmo tempo preparava lancheiras e mochilas. “Muito bem! Você desenha muito bem, deveria sempre desenhar.”

Ele ficou todo orgulhoso. “Posso mostrar para a minha professora?”

“Claro que pode. Ficou ótimo.”

“Mãe, você gostou que eu desenhei o Burj Khalifa porque é o prédio mais alto do mundo e também porque eu desenhei um avião que está voando muito rápido e… Ah, parece que ele vai bater no prédio!”

Olhei de novo. Tinha um avião, muito perto da torre.

“Hum, é um desenho muito legal, mas vamos deixar em casa em vez de levar para a escola.”

“Por quê?”

“Porque você pode fazer outros desenhos legais, vamos deixar este em casa”, respondi.

Porque somos muçulmanos e sua professora vai achar que simpatizamos com os terroristas, pensei.

As perguntas continuam. Você viu acontecer? Qual era o tamanho do avião? Posso ver as notícias? O prédio era alto mesmo?

Ele me ignora e guarda o desenho na mochila. Tenho de mudar a abordagem. Ele está com quase 7 anos, e sempre leio artigos que recomendam dar crédito para as crianças e explicar claramente por que eles não devem fazer certas coisas.

“Porque isto aconteceu de verdade; um avião bateu num prédio. Foi um dia muito triste, morreu muita gente. É por isso que você não deveria levar esse desenho para a escola. Ele pode lembrar a professora desse dia triste, e não queremos que ela fique triste, né?”

Achei que a explicação era adequada para a idade dele. Problema resolvido. Ele vai deixar o desenho em casa, e tudo vai ficar certo.

“Ai, meu Deus”, diz ele, espantado e curioso ao mesmo tempo. “Um avião bateu num prédio? Foi em Londres? Perto da nossa casa?”

OK, a conversa ainda não terminou – mas estamos falando de um evento importante, sobre o qual ele vai saber mais cedo ou mais tarde. Decido aproveitar a oportunidade para falar do assunto.

“Não, aconteceu nos Estados Unidos. As pessoas chamam de 11 de setembro.”

As perguntas continuam. Você viu acontecer? Qual era o tamanho do avião? Posso ver as notícias? O prédio era alto mesmo?

Isso não está indo de acordo com o plano. Começo a me arrepender de ter puxado o assunto, e ele não parece entender a gravidade da situação. Preciso explicar de novo, para que ele realmente entenda dessa vez. Será que mostro um vídeo? Talvez ele perceba que foi uma coisa muito séria.

Mostro um vídeo. Ele assiste chocado. Depois, olha o desenho.

“Quando aconteceu isso, mãe?”

“Aconteceu no dia 11 de setembro de 2001, e foi um dia muito triste”, enfatizo.

Ele escreve alguma coisa no desenho e me mostra. Para meu completo horror, ele tinha escrito 11 de setembro.

“O que você escreveu? Por que escreveu isso?” Tento não soar muito histérica. Ele ignora minhas perguntas.

Meu filho ainda não sabe que existem pessoas más que dizem ser muçulmanas e que cometeram atos de terrorismo. Na verdade, ele nem sabe o que é terrorismo.

“Meus amigos Peter e Collin sabem disso? Posso contar para eles?”

“Acho que não é boa ideia, não fale desse assunto”, digo, dessa vez sem conseguir esconder a histeria na minha voz e sabendo perfeitamente que, quando você diz que uma criança não pode falar do assunto, é exatamente o que ela vai querer fazer.

O que é que eu fiz? Por que dei essas informações para ele? Por que mostrei o vídeo? Ele vai para a escola e contar para todos os amigos: “Minha mãe me mostrou o vídeo do 11 de setembro”.

Vou ser presa e entrar para a lista de pessoas sob vigilância. Faço uma tentativa. Agora não tem mais volta.

“É que… foram muçulmanos que causaram a batida do avião. Se você começar a falar disso…” Hesito, nem sei bem o que quero dizer. Começo de novo.

“Muita gente tem muita raiva dos muçulmanos que fizeram isso e machucaram tanta gente. Somos muçulmanos e temos de mostrar pras pessoas que não somos assim.”

Percebo que não faço o menor sentido para ele.

“Mãe, você está dizendo que bateram o avião de propósito?”, ele me pergunta, de olhos arregalados. Me dou conta de que nem tinha explicado que, sim, foi de propósito. O tempo todo ele estava achando que tinha sido um acidente.

Dar-se conta disso foi um golpe duro. Meu filho ainda não sabe que existem pessoas más que dizem ser muçulmanas e que cometeram atos de terrorismo. Na verdade, ele nem sabe o que é terrorismo. Ele não sabe que existem pessoas que associam todos os muçulmanos com essa gente, ou que, quando um negro ou um muçulmano cometem um crime, eles são vistos como representantes da comunidade inteira.

Ele não sabe que a extrema direita está em ascensão na Europa e no resto do mundo. Ele nunca leu comentários odiosos na internet. Será que quero que ele saiba de tudo isso neste momento?

Decidi que não ia falar mais nada sobre o assunto, especialmente porque, cada vez que abria a boca, só piorava as coisas. Não queria que ele ficasse preocupado com o que os outros pensassem dele por causa de sua fé. Não queria passar para ele esse fardo antes da hora.

No caminho da escola, sinto um nó no estômago. E se ele contar para os amigos? Imagino uma mãe telefonando para a escola: “Preciso fazer essa denúncia porque nunca se sabe… Prevenir é melhor que remediar”.

Imagino a mãe dizendo para o filho ficar longe desse menino. A ideia de receber uma ligação da escola me chamando para uma conversa sobre meu filho me enche de horror. Poderia tentar explicar o que aconteceu, mas eles ainda ficariam com dúvidas. Tudo pareceria desculpas. A semente da suspeita estaria plantada – sou claramente muçulmana, afinal de contas.

Pensar assim me dava náusea. Melhor seria falar com o pessoal da escola antes que me procurassem. Decidi falar com a professora.

A ideia de receber uma ligação da escola me chamando para uma conversa sobre meu filho me enche de horror.

“Aconteceu a coisa mais engraçada hoje de manhã”, digo, tentando soar casual e jovial. Enquanto falo, só consigo pensar: “Por que tenho de fazer isso? Por que tenho de me justificar?” Sinto o nó no estômago apertando, e as emoções drenando toda minha energia.

Meus lábios começam a tremer. Não, não, penso. Mas não consigo controlar. Meus olhos começam a encher de lágrimas, e de repente estou sendo confortada pela professora. Peço desculpas e saio de cabeça baixa, para que os outros pais e mães não vejam que estou chorando. Quem dera. Algumas mães vêm perguntar se está tudo bem. Morro de vergonha.

Me sinto boba só de escrever sobre esse incidente, mas o medo de ser julgada não é irracional. Lembro uma vez que um aluno muçulmano escreveu que morava numa casa “terrorista” em vez de “com terraço” e acabou sendo interrogado pela polícia. Apreciei o humor negro da situação com meu filho, mas também dei-me conta de que nós muçulmanos e minorias somos condicionados a sentir medo e a pedir desculpas por coisas que não fizemos. É triste ter de me explicar para a professora e expor meu filho a algo que deveria acontecer só mais tarde.

O incidente também me fez perceber que essa é uma situação que vai acontecer com mais frequência conforme meus filhos ficam mais velhos.

Ser mãe já é difícil; quero que eles sejam gentis e atenciosos, que se alimentem bem, que façam esportes e não fiquem muito tempo no celular. Também quero que eles sintam orgulho de sua identidade muçulmano-britânica – mas temo que esse seja um dos meus maiores desafios.

A narrativa implacavelmente negativa de parte da mídia e dos políticos, que nos descrevem como um problema, e as microagressões em nossas vidas diárias nos fazem sentir em dobro a obrigação de provar nosso valor.

Acho que sempre tenho de ter um comportamento irrepreensível, e só uma mancada vai confirmar o que todo mundo ‘já sabe’.

Pior ainda: internalizamos estereótipos negativos e nossa suposta inferioridade. Me sinto assim, apesar de viver numa linda e multicultural comunidade em Londres, onde raramente vejo racismo explícito – nossa escola teve até mesmo uma feira para comemorar uma data importante da religião islâmica. Mas a sensação de representar minha etnia e minha religião é uma pressão constante. Acho que sempre tenho de ter um comportamento irrepreensível, e só uma mancada vai confirmar o que todo mundo “já sabe” – que os muçulmanos são retrógrados, ou inerentemente violentos.

O incidente também ofereceu um insight das minhas inseguranças mais profundas; do meu medo de ser julgada, do meu desejo de aceitação, de carregar o peso da culpa coletiva das atrocidades cometidas por outros em nome da minha religião.

Esses sentimentos são a manifestação insidiosa da islamofobia. Como protejo meus filhos pequenos desses sentimentos, que vão moldar a visão de mundo deles e sem dúvida terão efeito sobre sua autoestima e confiança?

Acho que ainda não tenho a resposta para essa pergunta.

Por ora, o incidente me provoca um senso de resistência. Não vou pedir desculpas por causa da minha identidade. Vou continuar a criar meus filhos segundo os valores nos quais acredito. Darei amor para que eles sempre sintam-se seguros. Vou expô-los a pessoas de diferentes históricos e crenças. Como me disse uma vez uma professora a respeito da minha filha: vou ensinar a eles que todo mundo é especial.

Porque a beleza das crianças pequenas é sua visão de mundo simplista. Elas são autênticas e não se deixam influenciar pelas opiniões dos outros. Quando uma criança conhece outro, ela não traz preconceitos nem julgamentos. Todos nós, adultos, poderíamos aprender com elas.

Como mãe, me preocupo com os bullies do parquinho, com os bandidos das ruas e os perigos da internet. Como mãe muçulmana, me preocupo com o fato de meu filho ser considerado uma ameaça no futuro. Me preocupo com os efeitos duradouros que a cobertura desumanizadora dos muçulmanos no noticiário e as representações negativas do Islã terão sobre meus filhos.

Minha única esperança é protegê-los até que eles tenham idade para entender – e sejam resilientes o bastante para superar.

Fonte: MSN

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