Os grandes desafios da Educação,Ciência e Inovação no Brasil !

“Dada a relevância do assunto, por deferência do Educador FRANCISCO APARECIDO CORDÃO, estamos publicando neste espaço o  Texto de autoria do Professor Doutor Helio Dias
Instituto de Estudos Avançados da USP e IVEPESP  .”
 
 
Nosso ensino (básico e fundamental) quase não motiva para as carreiras voltadas à exploração científica.  No ensino superior, as instituições públicas, com escassez de recursos e sem ambiente propício, têm baixíssima safra científica, que ainda assim não se alinha à nossa realidade. A grande maioria das outras unidades desse nível – comunitárias e particulares – não realiza essa função. Nos cursos de pós-graduação, os ajustes necessários são inúmeros para que eles se transformem numa usina confiável de geração contínua de novos conhecimentos. Enquanto nos países mais desenvolvidos a inovação tecnológica sai direto de seus laboratórios de pesquisa e desenvolvimento para o chão das fábricas, entre nós, muitas teses e pesquisas, inaplicáveis, mofam em nossas bibliotecas. As empresas, que fazem da Ciência & Tecnologia utilidades para a massa da população, quase não têm o hábito de buscar o conhecimento de que precisam nas poucas universidades e institutos de pesquisa e desenvolvimento realmente capacitados. Tem-se muito a fazer pela C&T no Brasil.
 
Diante desse quadro, o óbvio salta aos olhos: o Brasil carece de Ciência & Tecnologia, produzidas aqui. Copiamos muito (nem sempre com sucesso) dos poucos países detentores de um dos poderes mais decisivos do mundo, maior que a hegemonia política ou econômica: o conhecimento técnico-científico, o “know-how”. Nossa entrada no Primeiro Mundo não se fará sem produção de informação técnica e científica, maior e mais significativa. Só o impulso de uma C&T  ‘nossas’ contribuirá para alavancar o país para um desenvolvimento pleno e auto-sustentado.
 
Estaremos condenados a amargar essa posição de atraso científico e tecnológico no círculo vicioso que gera o subdesenvolvimento que por sua vez gera o atraso? É possível produzir conhecimentos e instrumentos válidos para fundamentar soluções adequadas aos nossos problemas?  Que realidades tolhem a formação de um ambiente propício à experimentação e às pesquisas produtoras de um conhecimento técnico-científico, de teor universal, sem dúvida, mas principalmente direcionadas ao atendimento das necessidades próprias do país? Em certas condições, a iniciação à ciência pode despertar o interesse e quem sabe até os primeiros sinais de uma tendência para a investigação técnico-científica. Nossa escola, pública ou particular, assume essa tarefa como parte de sua missão? Nessa fase, nossos adolescentes chegam a sentir curiosidade pela experimentação e descoberta do novo, sentimento motor de uma possível carreira em C&T?  Rumo ao vestibular e a um curso superior, escola ou alunos consideraram a possibilidade destes virem a ser profissionais da pesquisa?
 
No Brasil, investe-se em média com o aluno do ensino básico menos de 2% do que se investe por aluno nas universidades públicas. Com certeza, trata-se de uma distorção calamitosa que precisa ser vencida. Sem mais investimentos na formação básica, jamais os cursos superiores alcançarão qualidade satisfatória e, consequentemente, a pesquisa científica e o desenvolvimento tecnológico nacionais não poderão competir em nível global.
 
Os alunos brasileiros se iniciam muito tarde na pesquisa científica e tecnológica. Entre nós, o ensino de ciências é precário e em geral não motiva crianças e adolescentes para a investigação da natureza e de seus fenômenos. São raríssimas as escolas que, em seu currículo de ciências e das disciplinas com maior apoio científico, seguem um método de ensino que leve o aluno a recriar, pela experimentação, o processo histórico da geração da ciência: observação dos fenômenos e depois as diversas fases da elaboração do conhecimento científico. Promovem-se, é verdade, Feiras de Ciências, mas em geral pouco preparadas e sem empenho numa continuidade sistematizada quanto a temas e participantes. Elas servem mais para demonstração de final de cursos do que para fazer surgir e cultivar cientistas-mirins, descobrindo talentos e envolvendo ainda mais os já descobertos.
 
Nos países mais desenvolvidos, são bastante utilizados mecanismos institucionalizados, para despertar crianças e jovens à exploração científica.  Lá, estruturas dinâmicas interativas, chamadas “Exploratorium” ou “Museu de Ciência” ou ainda “Casa da Ciência”, permitem ao aluno realizar experiências, verificar e analisar seus resultados e ser, assim, desde bem cedo, introduzido a conceitos fundamentais da pesquisa científica e do desenvolvimento tecnológico. Outros processos deveriam ser instituídos para motivar, atualizar e desenvolver os professores dos ensinos básico e fundamental como agentes estimuladores, nos alunos, do espírito de descoberta do saber. Insiste-se: é importante realizar essa iniciação desde muito cedo, quando o potencial criativo tende a ser maior, e o desenvolvimento intelectual e seu direcionamento ainda não estão influenciados por opiniões ou pelo meio em que se vive.
 
E os cursos técnicos? Temos as Universidades Tecnológicas. Os países mais desenvolvidos, porém, valorizam muito esses cursos e os profissionalizantes.  É o caso das Politechnic Schools (Inglaterra), da Community & Junior Colleges (Estados Unidos), das IUTs (França) e das FHs (Alemanha). No Brasil, as Universidades Tecnológicas se destacam, pois têm formado profissionais, imediatamente absorvidos pelo mercado de trabalho. Aparentemente, tais estabelecimentos em geral satisfazem as necessidades do mercado.  No entanto, elas ainda não são muitas nem tão valorizadas quanto deveriam.  Há que se avaliar criteriosamente o desempenho dessas instituições, comprovar a sua importância, estimular o ingresso dos alunos nelas e incentivar a sua disseminação com qualidade. No Brasil, existem hoje poucas Universidades Tecnológicas, número insignificante sequer para atender às enormes necessidades nacionais nas áreas em que atuam. De qualquer forma, elas  podem ser a melhor sementeira de tecnólogos e pesquisadores, verdadeira esperança de nossa C&T.
 
“Vestibular: começa a escolha de uma futura profissão”
 
Num processo decisório importante, qualquer adulto procura buscar a maior quantidade possível de dados e fatos a respeito. Antes analisa cuidadosamente diversas alternativas. Somente depois, opta pela mais razoável, capaz de maior benefício, com menor custo, menor risco, maior satisfação e outras vantagens.
 
Ao final do ensino básico, hoje como sempre, os adolescentes precisam escolher uma profissão, talvez a decisão mais importante de suas vidas. Com 16 ou 17 anos, poucos estão suficientemente amadurecidos para sozinhos enfrentar uma tomada de decisão com tantas consequências: a de que vestibular fazer.  Alguns procuram informar-se, mas raramente encontram elementos suficientes e adequados. Projeções do mercado profissional para cinco anos à frente (quando estarão se formando), praticamente não existem ou não são facilmente acessíveis. Assim, a decisão sobre que rumo seguir é iniciada quase por pura inércia pessoal ou do meio, sem previsão clara nem opção lúcida do que exatamente farão depois.
 
Muitos jovens ainda se baseiam, para a escolha da profissão, em razões ou convicções tão simplistas quanto “vou fazer Engenharia porque gosto de matemática” ou “Medicina, porque não gosto de matemática” ou “Informática, porque é coisa de gente inteligente”.  No interior, particularmente, ainda existe a cultura de que “certos cursos” elevam o “status” de quem voltará da capital formado neles. Influenciados por essas ilusões e incentivados até pelos próprios pais, os jovens muitas vezes fazem cursos que não os levarão necessariamente, no retorno à cidade de origem, ao sucesso profissional nem à satisfação ou felicidade pessoais.
O estado do ensino básico e fundamental e o encaminhamento para os cursos superiores permitem uma constatação dolorosa para o futuro de uma C&T nossas: pouco ou quase nada se faz, isolada ou institucionalmente, para aumentar o número e a capacitação dos que vão construir o saber científico e tecnológico no Brasil.
Professor Doutor Helio Dias
Instituto de Estudos Avançados da USP e IVEPESP

Add Comentários