PISA e SAEB: Duas métricas diferentes?

“Dada a relevância do assunto, por deferência do Educador FRANCISCO APARECIDO CORDÃO, estamos publicando neste espaço o  Texto de autoria do colega Francisco Soares  .” 

Dois eventos recentes forneceram informações importantes para o debate sobre a qualidade da educação no Brasil.

A SBPC promoveu uma reunião regional em Sobral cujo tema foi “Educação Básica de Qualidade: currículo, carreira e gestão escolar”. O professor Daniel Lavor da UFC mostrou em sua apresentação resultados preliminares da aplicação do teste denominado “PISA for Schools”, nas escolas de Ensino Médio de Sobral. Os alunos destas escolas são egressos recentes das escolas de ensino fundamental de Sobral que, como é amplamente conhecido, tem resultados estelares na Prova Brasil.

O professor Lavor mostrou que as médias dos estudantes de quatro escolas são equivalentes à média dos estudantes de países, que ocupam lugares de destaque no ranking do PISA.  Ou seja, esta evidência reforça a informação mostra que há estudantes brasileiros de escolas públicas estaduais com bom desempenho no PISA, a métrica internacionalmente aceita para medir o aprendizado de Leitura e Matemática na educação básica.  Um fato a comemorar. No entanto, falta conhecer o percentual de estudantes destas escolas nos diferentes níveis de aprendizado para uma melhor descrição da situação educacional. Por outro lado, os dados mostram que a maioria dos estudantes que, no nono ano do ensino fundamental tiveram resultados excelentes, não mostraram a mesma excelência em um teste equivalente ao PISA.

A divulgação destes dados inéditos, coloca a necessidade de se entender por que estudantes que se saem tão bem na Prova Brasil, não tem bons resultados no PISA.

Uma resposta preliminar é que as exigências dos dois exames são diferentes. Ou seja, a métrica brasileira é diferente e, muito menos exigente. Em particular o PISA contém muitas questões abertas, completamente ausentes da Prova Brasil. Apenas com este tipo de questão é possível verificar se os estudantes alcançaram objetivos de aprendizagem que exigem processos cognitivos mais complexos como os de análise e reflexão.

O outro evento foi a defesa de dissertação de mestrado de Solange Mol, aluna do Prof. Daniel Matos do programa de pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Outro Preto. A aluna classificou 123 questões da Prova Brasil, em um dos quatro níveis da taxonomia SOLO: uni-estrutural, multiestrutural, relacional e abstrato estendido.

A aluna mostrou que todas as 57 questões de matemática do quinto ano que foram analisadas são do tipo uni-estrutural e, portanto, verificam o conhecimento de uma informação isolada. A análise mostrou que há muitas informações básicas e simples que não são conhecidas. No nono ano há apenas 4 questões entre as 66 analisadas que são classificadas na segunda categoria da taxonomia.

Ou seja, a dissertação mostra que o teste brasileiro verifica apenas aprendizagens superficiais, já que não inclui questões dos dois níveis mais altos da taxonomia que, portanto, a métrica usada para o monitoramento da educação básica brasileira é muito pouco exigente. No futebol, seria como verificar a qualidade de um time, colocando-o para competir com adversários da terceira divisão.

Estas duas contribuições do Prof. Lavor e de Solange Mol são importantes e precisam ser conhecidas e usadas neste neste momento que as redes e escolas estão tratando da implementação da BNCC. É importante que tanto os objetivos incluídos nos currículos, como a forma de ensiná-los, assim como a avaliação contemple as aprendizagens mais profundas. Ou seja, é urgente elevar o “sarrafo” exigido para dizer que a educação oferecida pelos sistemas de ensino no Brasil é, de fato, de qualidade.

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