Três filmes brasileiros são premiados no Festival de Berlim

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“Feito Pipa” vence as duas principais categorias da mostra Generation Kplus, da Berlinale. “Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha” e “Narciso” receberam, respectivamente, prêmios de leitores e júri independente

“Feito Pipa” foi aplaudido em pé na Berlinale

O filme brasileiro Feito Pipa, dirigido por Allan Deberton e estrelado pelo ator Lázaro Ramos, conquistou as duas principais premiações da mostra Generation Kplus, competição paralela do Festival Internacional de Cinema de Berlim dedicada a filmes internacionais para o público jovem.

A produção levou o Urso de Cristal (Gläserner Bär) de Melhor Filme, concedido pelo Júri Infantil da Generation Kplus, e também o Grande Prêmio do Júri Internacional de Melhor Filme da competição paralela.

Já o longa Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha, de Janaína Marques, foi celebrado pelo júri de leitores do jornal alemão Tagesspiegel, que escolhe de forma independente o melhor filme exibido na seção “Fórum” do festival, que concentra filmes de caráter mais experimental. Ambos foram gravados no Ceará.

Por fim, a Federação Internacional de Críticos de Cinema (Fipresci) premiou Narciso, do diretor Marcelo Martinessi. A associação avalia por meio de um júri independente filmes do programa de competição paralela. O longa brasileiro foi o escolhido da seção Panorama, uma das mais tradicionais do festival.

Ao todo, dez filmes com participação do cinema nacional foram exibidos ao longo do festival. Na mostra principal, outros dois filmes dirigidos por brasileiros disputavam o Urso de Ouro da Berlinale, o principal prêmio da competição. Rosebush Pruning, de Karim Aïnouz, e Josephine, de Beth de Araújo, estavam entre as 22 produções selecionadas pela curadoria do festival. Os longas, contudo, são produções de fora do Brasil.

Yellow Letters (“Cartas Amarelas”), um drama em língua turca, filmado na Alemanha e dirigido por um diretor alemão, venceu o prêmio principal. O longa conta a história de uma atriz e um dramaturgo casados que são obrigados a abandonar suas vidas confortáveis depois que o marido passa a ser alvo do Estado turco por publicar conteúdo crítico online.

Feito Pipa marca presença em competição paralela

Feito Pipa foi escolhido como melhor filme pelo Júri Infantil da Generation Kplus, pois seus personagens “comovem profundamente”. “Fomos arrebatados pela história envolvente, como se estivéssemos bem no meio dela. Questões importantes foram abordadas e merecem mais atenção”, afirmou o júri ao justificar a escolha pelo Urso de Cristal.

“Este filme nos cativou com sua narrativa envolvente, seu jovem protagonista multifacetado, autoconfiante e resiliente, e a maneira, muitas vezes bem-humorada e comovente, como ele lida com seus dilemas existenciais”, disse o Júri Internacional da mostra paralela, que também premiou o longa brasileiro.

“Ficamos encantados com as performances inesquecíveis de Yuri Gomes e Teca Pereira, e jamais esqueceremos o personagem Gugu, tão atlético quanto fabuloso, que se vê obrigado a se impor à medida que seu laço especial com a avó se desfaz”, afirmou o colegiado, composto pelo diretor indonésio Khozy Rizal, a atriz alemã Lena Urzendowsky e a diretora de programação do Festival de Sundance, Kim Yutani.

Cena do filme “Fiz um Foguete Pensando que Você Viria”, de Janaína Marques

“Esse é o nosso cinema”

Com paisagens e cores marcantes, Feito Pipa transporta o espectador para o sertão, com foco na vida em comunidade no semiárido. O ator principal é Yuri Gomes, que, assim como Lázaro Ramos, também começou sua formação artística no Pelourinho, em Salvador. É um filme que aborda a experiência de uma criança queer.

“Feito Pipa é a história de Gugu, um garoto de 10, 11 anos, que grita por liberdade, pelo direito de ser quem ele é. Mais do que querer ser aceito, ele diz: ‘Eu serei aceito do jeito que eu sou’. Ele mora com a avó porque a mãe faleceu, e o pai, que é o meu personagem, já tem uma nova família”, conta Lázaro Ramos em entrevista à DW Brasil.

O filme foi aplaudido de pé pelo público do festival berlinenseNo longa, Gugu sonha em ser jogador de futebol. Às margens de um reservatório, que vai secando lentamente e deixando a descoberto os restos fantasmagóricos de uma cidade submersa, ele cresce sob o cuidado amoroso de sua avó Dilma. O vínculo entre os dois, silencioso mas forte, os protege da rejeição do pai de Gugu e das pessoas que os rodeiam.

“No ano em que a gente também vem de um momento bonito, com Ainda Estou Aqui, O Agente Secreto, eu acho que é, primeiro, ano de celebrar. Mas o que eu mais celebro é justamente essa diversidade de temas. E a gente estar reforçando a nossa estética, o nosso jeito de fazer cinema. Alguns anos atrás, pela sobrevivência, tentamos nos igualar ao filme médio, um filme morno, um filme moldado pelas métricas algorítmicas do streaming, e de repente a gente renasce, gritando para o mundo: ‘esse é o nosso cinema!'”, destaca Lázaro Ramos.

“Tem sido muito revigorante perceber que o cinema brasileiro está a todo vapor. Eu acho que é um momento encorajador para a maioria dos jovens realizadores. A gente também tem tido políticas que colocam esse cinema Brasil adentro, através das cotas e de editais descentralizadores. E Feito Pipa é fruto disso, de um cinema feito no Ceará”, afirma Allan Deberton, diretor do filme, em entrevista à DW Brasil.

A nova promessa do cinema brasileiro?

Prêmios refletem cinema brasileiro menos centralizado

Assim como Feito Pipa, o longa Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha também foi gravado no Ceará. O filme acompanha Rosa em uma jornada de realismo mágico ao lado da mãe que quase não conheceu, revisitando traumas da infância ligados à prisão materna.

Em uma viagem pelas paisagens do Norte do Brasil, a narrativa explora temas como violência doméstica, insegurança e cura emocional. É o primeiro longa de Janaína Marques.

“Tem uma frase do cineasta cubano Santiago Álvarez que eu gosto muito: ‘um país sem imagem é um país que não existe’. É fundamental que um país se veja e se reconheça na tela. E, de certa forma, é isso que a gente está celebrando agora, esse momento em que somos abraçados por essa força mágica que o cinema tem”, disse ela à DW.

Já em Narciso, o diretor Marcelo Martiness transporta o expectador ao Paraguai de 1959. O filme mostra uma Assunção dividida entre a liberdade juvenil do rock’n’roll e o avanço de um regime repressivo. Nesse cenário, o músico Narciso vira símbolo de desejo e ameaça, enquanto a sociedade passa a vigiar comportamentos e sonhos, marcando o início de uma era de controle que sufoca uma geração inteira, resume a Berlinale.

Fonte:  www.dw.com.br


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