Em 23 de fevereiro de 1927 nascia o embaixador das favelas brasileiras
No dia 23 de fevereiro de 1927, em Recife, nascia Bezerra da Silva — cantor, compositor e violonista que se tornaria uma das figuras mais autênticas e contundentes do samba brasileiro. Conhecido como o “embaixador dos morros e favelas”, Bezerra construiu uma carreira marcada pela denúncia social e pela representação fiel do cotidiano das comunidades marginalizadas.
Nordestino de origem humilde, demonstrou desde a infância uma forte ligação com a música. Dizia “sentir” o dom de tocar, o que gerou conflitos familiares. Seu pai, integrante da Marinha Mercante, deixou o lar quando ele ainda era criança e foi viver no Rio de Janeiro. Anos depois, após também ingressar e ser expulso da Marinha Mercante, Bezerra descobriu o paradeiro do pai e partiu para o Rio em sua busca. Novos desentendimentos o levaram a morar sozinho no Morro do Cantagalo, onde trabalhou como pintor na construção civil enquanto atuava como percussionista em blocos carnavalescos.
Foi em 1950 que, por intermédio de um colega, chegou à Rádio Clube do Brasil, iniciando sua trajetória artística. Antes da fama, enfrentou um dos períodos mais difíceis de sua vida: viveu cerca de sete anos como mendigo nas ruas de Copacabana, enfrentou a depressão e chegou a tentar o suicídio. Segundo seu relato, foi salvo espiritualmente por uma entidade da Umbanda, religião que passou a praticar antes de, mais tarde, converter-se ao evangelismo.
Sua carreira fonográfica começou em 1969, com o primeiro compacto, e o primeiro LP veio seis anos depois. O reconhecimento, porém, só chegou com a série Partido Alto Nota 10, que consolidou sua identidade artística. Tornou-se um dos maiores expoentes do partido alto, dando voz a compositores anônimos — muitos deles usando pseudônimos para preservar a própria identidade.
Bezerra criou um estilo que ficou conhecido como “Sambandido” (ou “Gangsta Samba”), antecipando, em muitos aspectos, a crueza narrativa que mais tarde marcaria o gangsta rap. Suas músicas retratavam a malandragem, os conflitos com a polícia, a vida à margem da lei e as contradições sociais das favelas. Entre os sucessos estão “Malandragem Dá um Tempo”, “Seqüestraram Minha Sogra”, “Defunto Caguete”, “Bicho Feroz”, “Malandro Não Vacila” e “Pai Véio 171”, canções que misturavam humor, crítica social e linguagem popular.
Em 1995, participou do projeto “Moreira da Silva, Bezerra da Silva e Dicró: Os Três Malandros In Concert”, ao lado de Moreira da Silva e Dicró, uma irreverente paródia ao célebre espetáculo dos três tenores. Sua trajetória virou livro em 1998, com Bezerra da Silva – Produto do Morro, da pesquisadora Letícia Vianna.
Nos anos 2000, retornou à fé evangélica, ingressando na Igreja Universal do Reino de Deus, e lançou, em 2003, o álbum gospel Caminho de Luz. Mesmo enfrentando problemas de saúde, manteve-se ativo e chegou a colaborar com nomes como Planet Hemp e O Rappa, dialogando com novas gerações da música brasileira.
Bezerra da Silva faleceu na manhã de 17 de janeiro de 2005, no Rio de Janeiro, aos 77 anos, vítima de falência múltipla dos órgãos após complicações decorrentes de embolia pulmonar e pneumonia. Estava internado no Hospital dos Servidores do Estado desde outubro de 2004. Seu velório ocorreu no Teatro João Caetano, e o sepultamento no Cemitério Memorial do Carmo, no Caju.
Sua partida marcou o fim de uma era, mas sua obra permanece viva. Bezerra eternizou-se como cronista musical das periferias, transformando em samba as dores, ironias e resistências do povo brasileiro.
Fonte: www.brasilcultura.com.br