Depois de meio século de fidelidade partidária, o líder do partido é empurrado para a aposentadoria política
Tão grande quanto foi sua liderança partidária é sua ausência no cenário político mato-grossense, que ele ajudou a moldar no pós-1964.
Transcorridos 56 anos desde a primeira vez em que subiu ao palanque – de onde nunca desceu –, este é seu primeiro distanciamento de uma eleição em sua terra, Mato Grosso, onde nasceu em 4 de novembro de 1941, no município de Chapada dos Guimarães (67 km ao Norte de Cuiabá), que era o maior do mundo.
A aposentadoria não combina com seu perfil, e sem ele a disputa eleitoral perde o quê de encantamento que sua presença transmitia.
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Um jacarandá em carne, osso e alma – mais alma do que tudo.
Assim é Carlos Gomes Bezerra, que deixou a presidência regional do MDB, não pelo peso da idade, que foi o motivo apresentado, mas por injunções que o tempo se encarregará de mostrar.
Da Chapada para Cuiabá, onde chegou menino, para estudar.
Bezerra cresceu numa Capital conservadora, que, em 1964, abraçou o golpe militar como quem abraça o filho pródigo.
Ele, porém, ficou reticente. Reticente, não, foi resistente em sua filiação petebista de jovem sonhador.
Em 1969, logo após a edição do AI-5, em dezembro do ano anterior, pelo presidente Costa e Silva, os militares saíram às ruas cuiabanas literalmente caçando os poucos que desafiavam o regime de 31 de março.
Bezerra foi preso e recolhido ao 16º Batalhão de Caçadores – rebatizado 44º Batalhão de Infantaria Motorizado.
Não sofreu tortura física, mas foi submetido à pressão psicológica.
No período de prisão, sua única filha adoeceu e ele foi impedido de visitá-la, mas os militares o liberaram para o enterro, porém, com uma escolta para humilhá-lo.
Pouco tempo depois, em 1970, Bezerra estava no palanque do MDB – que nasceu com o bipartidarismo -, em busca de votos para ser deputado estadual, mas não se elegeu.
Mato Grosso, à época, incluía a base territorial que, mais tarde, seria Mato Grosso do Sul, que era tão ou mais governista do que a parte remanescente. E, pela oposição, somente Jesus Gaeta (MDB) conseguiu uma cadeira entre os 20 parlamentares.
Quatro anos depois, Bezerra iniciou um ciclo vitorioso de eleições, intercalado com tropeços.
Foi deputado estadual, deputado federal por cinco mandatos, duas vezes prefeito de Rondonópolis (212 km ao Sul de Cuiabá), senador e governador.
Mergulhar nos mandatos de Bezerra requer um trabalho de pesquisa.
Porém, de seus atos isolados, que moldam seu perfil, é possível extrair fatos que refletem sua têmpera democrática e comprometida com a democracia.
Quando preso, Bezerra conheceu um capitão do Exército, o cuiabano Estêvão Torquato, que era dentista do corpo de Saúde.
A situação de ambos, cada qual de um lado daquele momento, não criou fosso entre eles. Ao contrário, os aproximou, os fez amigos.
Estêvão Torquato alcançou a patente de coronel e, além de militar, tinha veia política; exerceu cargos eletivos chegando a deputado estadual pela Arena, o partido de sustentação do regime de 31 de Março.
Em 1982, Bezerra era deputado federal e candidato a prefeito de Rondonópolis, e Estêvão Torquato, mesmo cumprindo mandato de deputado estadual eleito pela Arena, participou de sua campanha.
Três anos depois, filiado ao PMDB, Estêvão Torquato foi eleito vice-prefeito de Cuiabá, na chapa encabeçada por Dante de Oliveira (PMDB).
Sem mágoa, sem rancor, Bezerra superou o período da prisão e percorria Mato Grosso de ponta a ponta, plantando sementes da democracia.
Em 1985, os municípios de fronteira, zona de segurança nacional e as capitais recuperaram o direito de eleger prefeitos.
Bezerra articulou com a cúpula nacional para estimular Dante de Oliveira à disputa, pois ele estava no auge do prestígio político, por conta da emenda das Diretas, apresentada no ano anterior, e queria ser governador em 1986, o que também era seu sonho.
Com o jingle “Dante sim/Dante já/O futuro prefeito de Cuiabá”, seguidores de Bezerra empurraram Dante para a candidatura, mas com um detalhe: Bezerra escolheu o amigo Estêvão Torquato para vice.
Na composição nacional de Bezerra com a cúpula do PMDB por Dante, o presidente José Sarney o nomeou ministro da Reforma e do Desenvolvimento Agrário.
De quebra, Estêvão Torquato assumiu a prefeitura, enquanto Dante permanecia no ministério.
Assim, o caminho foi aplainado para sua candidatura vitoriosa ao Governo, em 1986.
Jayme Campos (PFL) venceu a eleição ao Governo em 1990, mas, quatro anos depois, Dante chegou arrasador, assumiu o Paiaguás e Bezerra era senador, eleito em 1994 e com mandato até 2002.
Bezerra sentiu que os pefelistas liderados por Jayme Campos poderiam voltar ao Governo, e montou uma armadilha para eles.
Júlio Campos, irmão de Jayme, era senador em final de mandato e queria ser candidato a governador, cargo que exerceu no período de 1983 a 1986.
Bezerra compôs com Júlio, que saiu ao Governo, enquanto ele, mesmo ainda tendo quatro anos de mandato no Senado, lançou-se a uma estranha reeleição.
Resumo: para a história, Júlio e Bezerra morreram abraçados, porém a realidade era outra, bem diferente.
Bezerra facilitou a reeleição de Dante, que estava filiado ao PDT, mas era seu aliado ideológico, e botou Rogério Salles para vice.
Rogério foi seu vice-prefeito em Rondonópolis e o sucedeu em 1994, quando de sua eleição para senador.
Bezerra sempre manteve uma carta na manga.
Prefeito de Rondonópolis em 1983, deparou-se com a força econômica dos bancos.
Nenhuma agência bancária tinha alvará de funcionamento. Ele as notificou.
Transcorrido o prazo de 10 dias, concedidos para a regularização, fiscais da prefeitura lacraram o Banco do Brasil Caixa, Bradesco, Itaú, Bemat, Bandeirantes, Amazônia, Unibanco – enfim, todos.
O caixa do município foi aquecido com uma receita que, sistematicamente, não o abastecia.
Com um olho em Mato Grosso e outro no plano político nacional, Bezerra controlava o partido em sua terra e tinha trânsito nacional por sua postura democrática e espírito partidário.
Em 1982, o PMDB de São Paulo elegeu FrancoMontoro governador e Orestes Quércia vice.
A busca por cargos comissionados foi muito grande, e a solução foi enviar vários para outros estados e municípios administrados por correligionários.
Para Rondonópolis, Orestes Quércia enviou Luiz Alberto Esteves Scaloppe e alguns de seus liderados.
Bezerra nomeou Scaloppe secretário e ele chegou a ocupar três secretarias ao mesmo tempo.
Em seguida, mandou a fatura para Quércia: Olacyr de Moraes construía a ferrovia Ferronorte de Rubinéia (SP) para Rondonópolis e tinha um grande desafio – a travessia do Rio Paraná.
Bezerra cobrou Quércia e o PMDB paulista.
Em 1991, Quércia era governador e iniciou a construção da ponte rodoferroviária com 3,7 km – maior ponte fluvial brasileira – ,que ganhou o nome de Rollemberg-Vuolo.
A denominação da ponte homenageia dois políticos que defendiam a obra da ferrovia: Roberto Rollemberg, deputado federal e presidente do PMDB paulista, e a parte rodoviária da ponte leva seu nome; e Vicente Vuolo, que, quando deputado federal pela Arena, apresentou um projeto pedindo a construção da ferrovia.
E o trecho ferroviário sobre o Rio Paraná ganhou a denominação de Vuolo.
ONTEM E HOJE – O PMDB dos deputados federais Emanuel Pinheiro Neto e Juarez Costa e dos deputados estaduais Dr. João, Janaína Riva, Juca do Guaraná e Thiago Silva, foi construído, ao longo de década,s por Bezerra.
Dentre seus filiados, alguns trocaram de partido, o que é comum em Mato Grosso.
Iinclusive, no PMDB de agora, onde a saída de Emanuelzinho para o PSD é considerada certeira.
Porém, a legenda do Dr. Ulysses Guimarães e de Bezerra teve e tem em seus quadros, dentre outros, os seguinte nomes:
Padre Pombo, Edison de Freitas, Gilson de Barros, Dante de Oliveira, Paulo Nogueira, Fausto Faria, Antero Paes de Barros, Márcio Lacerda, José Lacerda, Rogério Salles, Wilson Santos, Teté Bezerra, Silval Barbosa, Angelina Benedita Pereira, Mauro Buzinaro, Antônio Domingo Rufatto, José Clemente Mendanha, Kazu Sano, André Bringsken, Zé Carlos do Pátio, William Dias, Osvaldo Sobrinho, Hermes Bergamim, Antônio Porfírio de Brito, Lírio Lautenschlager, Kalil Baracat, Tonho do Menino Velho, Valter Miotto Ferreira, Arion Silveira, Louremberg Nunes Rocha, Antônio Estolano, Miguel Ramos, Isidoro Abílio de Moraes Filho, Fábio Martins Junqueira, Ednilson Luiz Faitta, Uslei Gomes, Arnóbio Vieira de Andrade, Isaías Rezende, Elarmim Miranda, Lauro da Mata, Hermes de Abreu, Maria Niuza Lima Faria, Cicilio Rosa Neto, Apotâmio de Carvalho, Leonese Pinho Carvalho, João Bosco, Sarita Baracat, Augustinho de Freitas, Luiz Scaloppe, José Pontim, Antônio Ribeiro Torres, Francis Maris Cruz, Marilza Augusta, Júlio da Papelaria, Tony Dubiella, Amadeu Tamandaré, Romoaldo Júnior, Osmir Pontin, Sidney Pires Salomé, Milton Rodrigues, Alberto Saddi, Osvaldo Paiva, Moacir Gonçalves de Araújo, Osmar Froner, Assiel Bezerra, Edegar Nogueira Borges, Percival Muniz, Dito Pinto, Joemil Araújo, Jair Benedetti, Reinhard Ramminger, Batico de Barros, Parassu Souza Freitas, Nico Baracat, Rozendo Ferreira, Kalil Baracat, Dimas Melo, Nataniel de Jesus, Orlando Pereira, Aguinaldo Lucena, Adelcino Lopo, Leonardo Bortolin, Valéria Bevilacqua, Gelson Gonçalves, Antônio Ferreira Neto, Adair José Moreira, Augusto Mário Vieira, José Garcia Neto, Cesar Perigo, José Almir da Silva, Nilson Santos, Walace Guimarães, Adalto de Freitas, Rodrigues Palma, Leuzipe Domingues Gonçalves, José Casal Del Rey, Sirineu Moleta, Pascoal Alberton, Cláudio do Posto, João Assis Ramos, Pedro Satélite, Joaquim Sucena, Clóvis Cardoso, Santo Scaravelli, Totó Parente, Beto Farias, Antônio Carlos Silveira de Vasconcelos, José Domingos Fraga Filho, Baiano Filho, Manoel Loureiro Neto, Valtenir Pereira, Calebe Francio, Ricardo Babinski, Jairo Lew, Rogério Silva, Manoel da Silva Neto, Naftaly Calisto da Silva, Patrícia Fernandes de Oliveira (Patrícia Vilela), José Arimatéia Fernandes, Chicão Bedin, Luiz Schuster, Norberto Schwantes, Luiz Martins, Joldeque Soares, João Klimaschesk, Euclides dos Santos, Ricardo de Carvalho, Luiz Fernando de Campos, Mariano Kolankiewicz, Luciene Soares de Lima, Mariuva Valentin, Jildeth Brito de Farias, Juliana Rosa Kolankiewicz, Dalva Maria de Lima Peres, José Rezende da Silva (Zé Guia), Wilson Lemos, Geraldo Eustáquio de Carvalho, Paulo Bezerra, Vanderlei Abreu, Eduardo José da Silva Abreu (Eduardo Português), Estevão Torquato, Sebastião Alves Júnior, Francisco Bezerra, Juvenal Pereira Brito (Ná), José Meirelles, Luiz Carlos Prietch, Elmo Bertinetti, João Abreu Luz, José Márcio Guedes e Rosângela Aparecida Nervis.
Oficialmente, a liderança política de Bezerra é página virada e ele sente na pele – mais na alma – o gosto amargo semelhante ao que o eleitor experimenta após digitar na urna eletrônica e, mais tarde, compreender que sua escolha não foi a melhor.
Como essa de Bezerra, que, no ápice de maturidade política e da lucidez intelectual, com sua voz respeitada Brasil afora e acumulando o saber acadêmico e das experiências em mais de meio século na vida pública.
Que venha logo outubro. Bezerra virou saudade nesta terra onde o MDB demonstra que não tem discernimento para diferenciar Bolsonaro de democracia nem para compreender a dimensão de um grande líder, que preferiu sair de cena a disputar espaço em seu berço com alguém recém-chegado e que não sabe a importância de sua trajetória em defesa dos princípios democráticos e seu eterno “Manda Brasa”.
Fonte: www.diariodecuiaba.com.br