O renomado psicanalista Christian Dunker fez uma análise do comportamento de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, em entrevista ao programa “Boa Noite 247”. O especialista justifica que, por conta do capitalismo contemporâneo, essas figuras de autoridade se destacam porque produzem uma espécie de individualização do poder.
“Produzem esse efeito mágico, carismático, de dar corpo e carne para essa fantasia de que uma pessoa excepcional, alguém que tem uma personalidade errática, incomum ou superlativa, seria capaz de produzir transformações que as formas institucionais não conseguem produzir, que as comunidades não fazem”, explica.
Segundo análise de Dunker, o discurso de Trump mostra uma intenção de ser amado. “Ele quer ser amado, ele quer vencer, dotes carismáticos, ser uma pessoa que tem ideias tão brilhantes que não é compreendido”, destrincha
Embora outros líderes com discursos autoritários sempre sejam comparados com Trump, Dunker enxerga diferenças, como no caso de Javier Milei, presidente da Argentina. “Milei é diferente de Trump. Milei é um missionário, ou seja, se a gente fosse procurar um correlato, é alguém que está numa espécie de cruzada. Alguém falou em Canudos. Ele está contra todos, ele suporta ser odiado, ele tem lá suas convicções e teoriza sobre isso. O discurso do Trump é uma espécie de oposto”, descreve.
Dunker ainda aponta os riscos de classificar Trump como alguém que porta um transtorno mental, porque isso pode soar como uma tentativa de tirar dele a responsabilidade dos próprios atos, algo que a Psicanálise não corrobora.
“E aí sistematicamente a gente pergunta: ‘É louco ou é cruel?’. Ou seja, tem uma patologia, ele tem um tipo parecido com uma doença e isso o isenta, é um assunto médico, não é mais um assunto da responsabilidade da própria pessoa. Ou então é uma espécie de vontade decidida, de vontade malévola, de malvado e cruel.”
Trump, segundo Dunker, sofre de uma patologia social, que reflete um modo de funcionamento do laço social que produz sofrimento mesmo sendo normalizado. Não se trata de uma doença individual, mas de um conceito sustentado por identificações de massa e pela suspensão do juízo crítico.
“O Trump é um ótimo exemplo do que a gente chama de patologia social. Patologia do social sempre aparece individualizada. Tem um herói, tem um sujeito excepcional, que, na verdade, corresponde ao que o Freud chamava de psicologia das massas. Ou seja, é alguém que começa a funcionar em estrutura de massa. Ele não funciona mais como indivíduo, e isso é o complicado.”