Construtora que fez obras do autódromo do Parque Novo MT tem como administrador parente de ex-senador e diretor da MTPar
Uma série de denúncias envolvendo contratos públicos, obras de grande porte e movimentações financeiras milionárias voltou a colocar o ex-governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (União), no centro do debate político estadual.
As acusações, divulgadas pelo ex-governador e jurista Pedro Taques (PSB), apontam possíveis irregularidades que, somadas, ultrapassam R$ 500 milhões e envolvem figuras influentes do núcleo político e empresarial ligado à gestão estadual.
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Entre os principais pontos levantados, está a execução da obra do autódromo do Parque Novo Mato Grosso, orçada em R$ 208 milhões e ainda inacabada.
O projeto integra um complexo que já teria consumido mais de R$ 2 bilhões em recursos públicos e vem sendo alvo de críticas por priorizar investimentos considerados não essenciais, como uma roda-gigante avaliada em cerca de R$ 70 milhões, em detrimento de áreas como Saúde, Segurança e Educação.
A denúncia destaca ainda possíveis vínculos familiares entre empresários responsáveis pela obra e figuras estratégicas da política estadual.
Um dos administradores citados, Victor Matheus Peixoto Felisbino, é apontado como parente de José Aparecido dos Santos, o Cidinho Santos – ex-senador suplente e nome cotado para compor chapa ao Senado com Mauro Mendes, nas eleições deste ano.
Além disso, o caso envolve outros membros da família Santos, incluindo Wener Santos, presidente da MT Participações e Projetos (MTPar), empresa estatal responsável por conduzir parte das obras e concessões estratégicas do Estado.
A proximidade entre os envolvidos levanta suspeitas de favorecimento em contratos públicos, o que poderia configurar prática de peculato, quando há uso indevido de recursos públicos para beneficiar interesses privados.
Outro eixo das denúncias gira em torno da BR-163, principal corredor logístico de Mato Grosso.
Após a retomada da concessão pelo governo estadual, a rodovia passou a ser administrada pela Nova Rota do Oeste, empresa sob controle público.
Segundo os apontamentos, contratos de grande volume financeiro teriam sido realizados sem licitação, chegando a cifras próximas de R$ 4 bilhões.
A rodovia, essencial para o escoamento da produção agrícola, movimenta valores expressivos.
Estimativas indicam arrecadação anual superior a R$ 2 bilhões em pedágios, com lucro líquido que pode variar entre R$ 600 milhões e R$ 980 milhões ao ano, o que aumenta o interesse político e empresarial sobre sua gestão.
As denúncias também avançam para o campo financeiro, envolvendo um pagamento de R$ 308 milhões feito pelo Tesouro de Mato Grosso, em 2024.
O valor teria sido destinado a fundos de investimento ligados ao Banco Master, apesar de a dívida original pertencer à empresa de telecomunicações Oi S/A, em recuperação judicial desde 2016.
Segundo os relatos, a negociação teria ocorrido de forma acelerada — em menos de 30 minutos — e com deságio, levantando questionamentos sobre a legalidade e a transparência da operação.
Parte dos recursos, de acordo com a denúncia, teria sido direcionada a fundos ligados a pessoas próximas ao ex-governador, incluindo familiares.
Entre os nomes citados, está o de Luís Antônio Taveira Mendes, filho de Mauro Mendes, além de empresários com ligações políticas no Estado.
Também aparece a Minerbrás, empresa associada ao ex-governador, que teria sido beneficiada indiretamente na cadeia de repasses financeiros.
Outro ponto sensível envolve a relação entre as empresas contratadas para obras públicas e atividades de mineração.
De acordo com os apontamentos, há interseções entre empreiteiras responsáveis por contratos milionários e garimpos localizados em Nossa Senhora do Livramento (46 km a Oeste de Cuiabá) – área onde também estaria instalada empresa ligada à família Mendes.
As acusações foram encaminhadas ao Ministério Público de Mato Grosso e a outros órgãos de controle, que deverão avaliar a necessidade de investigação.
Apesar disso, parte dessas instituições já teria indicado, em análises preliminares, não haver inconsistências suficientes para apontar irregularidades, o que não impede a continuidade das apurações diante do volume de indícios e conexões apresentadas.
No campo político, o impacto das denúncias ocorre em um momento estratégico.
Com as eleições de 2026 se aproximando, Mauro Mendes é apontado como um dos principais nomes na disputa por uma vaga no Senado.
A possível ligação com aliados investigados e contratos controversos pode se tornar munição para adversários, além de gerar desgaste na opinião pública.
Pedro Taques, responsável por tornar públicas as denúncias, afirma que sua atuação não tem motivação eleitoral, mas sim o objetivo de provocar fiscalização sobre o uso de recursos públicos.
Ele critica a atuação de órgãos de controle e defende maior rigor na investigação de contratos firmados pelo governo estadual.
As declarações também refletem um ambiente de tensão política crescente em Mato Grosso, onde disputas eleitorais costumam ser marcadas por forte polarização.
O cenário atual indica que temas como transparência, gestão de recursos públicos e relações entre poder político e empresarial devem ganhar protagonismo no debate eleitoral.
Enquanto isso, aliados dos citados nas denúncias negam irregularidades e classificam as acusações como infundadas ou motivadas por disputas políticas.
Cidinho Santos, por exemplo, já solicitou à Justiça a exclusão de seu nome das investigações, alegando não ter envolvimento nos fatos mencionados.
O desfecho das denúncias ainda é incerto, mas o volume de recursos envolvidos e a complexidade das relações apresentadas indicam que o caso deve permanecer em evidência nos próximos meses.
Com cerca de quatro meses até o primeiro turno das eleições, o episódio pode influenciar diretamente o cenário político estadual e redefinir estratégias de campanha.
Diante desse contexto, Mato Grosso se aproxima de um processo eleitoral que promete ser um dos mais disputados da história recente, com a possibilidade, inclusive, de segundo turno inédito para o governo estadual – reflexo de um ambiente político cada vez mais fragmentado e sob intensa vigilância da sociedade
Fonte: . www.diariodecuiaba.com.br